GUERRA OU PAZ – A UCRÂNIA ENTRE O OCIDENTE E O ORIENTE – PORQUE ESTÁ A NATO NA JUGOSLÁVIA? por SEAN GERVASI – CONFERÊNCIA publicada por GLOBAL RESEARCH – segunda parte

 

 

 

Why Is NATO In Yugoslavia?, conferência em Janeiro de 1996 por Sean Gervasi

Global Research, 9 de Setembro de 2001

Apresentação de Michel Chossudovsky, em 8 de Abril de 2022

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

(conclusão)

A Etapa seguinte: “Estabilizar” a Leste

A atual pressão para o alargamento da NATO  à Europa Central e Oriental faz parte de um esforço para criar aquilo a que erroneamente se chama “a nova ordem mundial”. É o complemento político-militar das políticas económicas iniciadas pelas grandes potências ocidentais e concebidas para transformar a sociedade da Europa Central e Oriental.

Os Estados Unidos, a Alemanha e alguns dos seus aliados estão a tentar construir uma ordem verdadeiramente global em torno da economia da Bacia do Atlântico Norte. Na verdade, não há nada de muito novo sobre o tipo de ordem que estão a tentar estabelecer. Ela deve ser fundada em instituições capitalistas. O que é novo é que eles estão a tentar estender “a velha ordem” aos vastos territórios que foram lançados no caos pela desintegração do comunismo. Estão também a tentar incorporar nesta “ordem” países que anteriormente não faziam parte da mesma.

Numa palavra, estão a tentar criar um sistema capitalista funcional em países que viveram sob o socialismo durante décadas, ou em países, como Angola, que estavam a tentar libertar-se do sistema capitalista.

Ao tentarem estabelecer uma “nova ordem mundial” as grandes potências ocidentais devem também pensar em como preservá-la. Assim, em última análise, devem pensar em alargar o seu poder militar para as novas áreas da Europa que tentam anexar à Bacia do Atlântico Norte. Daí o papel proposto pela NATO na nova ordem europeia.

Os dois principais arquitetos do que poderia ser uma nova Europa, integrada e capitalista, são os Estados Unidos e a Alemanha. Estão a trabalhar em conjunto, em estreita colaboração especialmente nas questões da Europa de Leste. Com efeito, formaram uma aliança estreita na qual os EUA esperam que a Alemanha ajude a gerir não só os assuntos da Europa Ocidental mas também da Europa de Leste. A Alemanha tornou-se, como George Bush afirmou em Mainz em 1989, um “parceiro na liderança”.

Esta relação estreita liga os EUA à visão da Alemanha do que os analistas alemães e americanos estão agora a chamar a Europa Central. Trata-se de uma visão que exige: 1) a expansão da União Europeia para Leste; 2) a liderança alemã na Europa; e 3) uma nova divisão do trabalho na Europa.

É a ideia de uma nova divisão do trabalho que é particularmente importante. Na visão alemã, a Europa será no futuro organizada em anéis concêntricos em torno de um centro, que será a Alemanha. O centro será a região mais desenvolvida em todos os sentidos. Será a mais desenvolvida tecnicamente e a mais rica. Terá os níveis mais altos de remunerações, salários e rendimentos per capita. E empreenderá apenas as atividades económicas mais rentáveis, aquelas que o colocarem no comando do sistema. Assim, a Alemanha encarregar-se-á do planeamento industrial, da conceção, do desenvolvimento da tecnologia, etc., de todas as atividades que irão moldar e coordenar as atividades de outras regiões.

À medida que nos afastamos do centro, cada anel concêntrico terá níveis mais baixos de desenvolvimento, riqueza e rendimento. O anel que rodeia imediatamente a Alemanha incluirá uma grande quantidade de atividade de fabrico e de serviços lucrativos. Destina-se a incluir partes da Grã-Bretanha, França, Bélgica, Holanda e norte de Itália. O nível geral de rendimento seria elevado, mas mais baixo do que na Alemanha. O anel seguinte incluiria as partes mais pobres da Europa Ocidental e partes da E:uropa Oriental, com alguma manufatura, transformação e produção alimentar. Os níveis remuneratórios e salariais seriam significativamente mais baixos do que no centro.

Escusado será dizer que, neste esquema de coisas, a maioria das áreas da Europa de Leste estarão num anel exterior. A Europa de Leste será um tributário do centro. Produzirá alguns bens manufaturados, mas não principalmente para seu próprio consumo. Grande parte do seu fabrico, juntamente com matérias-primas, e mesmo alimentos, será enviada para o estrangeiro. Além disso, mesmo a indústria transformadora  pagará salários e vencimentos baixos E o nível geral de salários e vencimentos, e portanto de rendimentos, será mais baixo do que tem sido no passado.

Em suma, a maior parte da Europa Oriental será mais pobre no novo sistema integrado do que teria sido se os países da Europa Oriental pudessem tomar as suas próprias decisões económicas sobre o tipo de desenvolvimento a prosseguirem. O único desenvolvimento possível em sociedades expostas à penetração de capital estrangeiro poderoso e rodeadas pelas regras do Fundo Monetário Internacional é o desenvolvimento dependente.

Isto também se aplicará à Rússia e aos outros países da Comunidade de Estados Independentes. Tornar-se-ão também tributários do centro, e não se colocará a questão de a Rússia seguir um caminho de desenvolvimento independente. Haverá obviamente alguma indústria transformadora  na Rússia, mas não haverá possibilidade de um desenvolvimento industrial equilibrado. Pois as prioridades de desenvolvimento serão cada vez mais ditadas por centros de decisão fora da Rússia. As empresas ocidentais não estão interessadas em promover o desenvolvimento industrial na Rússia, como mostram os números do investimento estrangeiro.

O principal interesse ocidental na Comunidade de Estados Independentes (CEI) é a exploração dos seus recursos. A desagregação da União Soviética foi assim um passo crítico para abrir a possibilidade de tal exploração. Para as antigas repúblicas da URSS, a sua vulnerabilidade tornou-se muito maior quando se tornaram independentes. Além disso, as empresas ocidentais não estão interessadas em desenvolver recursos da CEI para uso local. Estão interessadas em exportá-los para o Ocidente. Isto é especialmente verdade para os recursos de gás e petróleo. Muito do benefício da exportação de recursos reverteria, portanto, a favor de países estrangeiros. É provável que grandes partes da antiga União Soviética se situem então  numa situação semelhante à dos países do Terceiro Mundo.

O que a Alemanha procura, então, com o apoio dos EUA, é uma racionalização capitalista de toda a economia europeia em torno de um poderoso núcleo alemão. O crescimento e elevados níveis de riqueza no núcleo devem ser sustentados por atividades subordinadas na periferia. A periferia é para produzir alimentos e matérias-primas, e para fabricar produtos para exportação  para o núcleo e para os mercados ultramarinos. Em comparação com a Europa (Ocidental e Oriental) dos anos 80, a futura Europa deverá ser totalmente reestruturada, com níveis de desenvolvimento cada vez mais baixos à medida que se afastam do centro alemão.

Assim, muitas partes da Europa Oriental, bem como grande parte da antiga União Soviética, destinam-se a permanecer permanentemente subdesenvolvidas, ou áreas relativamente subdesenvolvidas. A implementação da nova visão do trabalho na Europa significa que devem ficar  bloqueadas no atraso económico.

Assim, para a Europa Oriental e os países da CEI, a criação de uma Europa “integrada” dentro de um quadro capitalista exigirá uma vasta reestruturação. Esta reestruturação poderá ser muito rentável para a Alemanha e os EUA. Significará um recuo no tempo para as partes da Europa que estão ligadas ao Ocidente.

A natureza das mudanças em curso já foi prefigurada nos efeitos das “reformas” implementadas na Rússia a partir do início dos anos 90. Foi dito, é claro, que estas “reformas” acabariam por trazer prosperidade. No entanto, esta reforma foi, desde o início, uma aspiração  oca. Pois as “reformas” implementadas por insistência ocidental nada mais eram do que a habitual reestruturação imposta pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional aos países do Terceiro Mundo. E tiveram os mesmos efeitos.

O mais óbvio é a queda abrupta do nível de vida. Um terço da população da Rússia está agora a tentar sobreviver com rendimentos abaixo do limiar oficial de pobreza. A produção desde 1991 caiu para menos de metade. A inflação está a correr a uma taxa anual de 200 por cento. A esperança de vida de um homem russo caiu de 64,9 anos em 1987 para 57,3 anos em 1994. [15] Estes números são semelhantes aos de países como o Egipto e o Bangladesh. E, nas atuais circunstâncias, não há realmente perspetivas de uma melhoria das condições económicas e sociais em Rússia. Na realidade, é provável que os padrões de vida continuem a baixar.

É evidente que existe uma raiva generalizada, e justificada, na Rússia, e noutros países, sobre o colapso do nível de vida que tem acompanhado as fases iniciais da reestruturação. Isto tem contribuído para um crescente retrocesso político dentro da Rússia e de outros países. O exemplo mais recente mais óbvio pode ser encontrado nos resultados das eleições parlamentares de Dezembro na Rússia. É também evidente que a queda contínua do nível de vida no futuro irá criar novas reações de raiva.

Assim, a extensão da velha ordem mundial à Europa Oriental e à CEI é um exercício precário, carregado de incertezas e riscos. As grandes potências ocidentais estão extremamente ansiosas de que tenha êxito, porque, até certo ponto, para elas,  o êxito, definido em termos da exploração eficiente destas novas regiões,  seria uma solução parcial para os seus próprios graves problemas económicos. Há uma tendência cada vez mais forte nos países ocidentais para deslocarem os seus próprios problemas, porque veem  a atual competição internacional pela exploração de novos territórios como uma espécie de solução para a estagnação económica mundial.

Os analistas ocidentais supõem, com razão, que o futuro trará instabilidade política. Assim, como o Senador Bradley afirmou recentemente, “A questão sobre a Rússia é se a reforma é reversível”. [16] Os analistas militares retiram a implicação óbvia: quanto maior o poder militar que pode potencialmente ser exercido sobre a Rússia, menor a probabilidade de as “reformas” serem reversíveis, serem invertidas. Este é o significado da seguinte declaração extraordinária do Grupo de Trabalho sobre o Alargamento da OTAN:

A tarefa de segurança da NATO já não se limita à manutenção de uma postura militar defensiva contra uma força contrária. Não existe uma ameaça militar imediata à segurança da Europa Ocidental. A instabilidade política e a insegurança na Europa Central e Oriental, contudo, afetam grandemente a segurança da área da NATO. A NATO deve ajudar a satisfazer os desejos da Europa Central e Oriental de segurança e integração nas estruturas ocidentais, servindo assim os interesses de estabilidade dos seus membros. [17]

Isto representa uma posição inteiramente nova por parte da NATO. É uma posição que alguns países da NATO consideraram imprudente não há muito tempo. E é alarmante, porque não se afrontam  as verdadeiras razões por detrás da atual pressão para a extensão da NATO. Por mais evasivo e sofisticado que seja o raciocínio do Grupo de Trabalho, parece que o debate em muitos países está agora encerrado. Seria, evidentemente, muito melhor se as verdadeiras questões pudessem ser debatidas publicamente. Mas de momento não podem ser, e a pressão para o alargamento da NATO vai continuar.

Os perigos do alargamento da NATO

A atual proposta de expansão da NATO  para leste cria muitos perigos.

Deveria ser afirmado que muitos líderes dos países ocidentais se opõem à expansão da NATO  e têm explicado repetidamente os perigos de tal expansão. É importante reconhecer que, apesar da posição oficial da NATO e do recente relatório do Grupo de Trabalho, existe uma forte oposição à expansão da NATO para leste. No entanto, de momento, aqueles que são a favor da expansão da NATO estão a ganhar.

Quatro perigos da expansão da NATO, em particular, requerem discussão aqui.

O primeiro é que a expansão da NATO  colocará novos membros sob a égide da NATO. Isto significará, por exemplo, que os Estados Unidos e outros membros ocidentais serão obrigados a defender, digamos, a Eslováquia contra um ataque. De onde virá um ataque? Estará a NATO  realmente preparada para defender a Eslováquia no caso de um conflito com outro país da Europa de Leste?

Num país como os Estados Unidos, isto seria muito impopular. Como disse o Senador Kassebaum em Outubro do ano passado:

Estará o povo americano preparado para se comprometer, nos termos do Tratado do Atlântico Norte, que um ataque armado contra um ou mais destes potenciais novos membros será considerado um ataque contra todos? [18]

A questão da extensão do guarda-chuva é uma questão crítica. Porque  as potências da NATO são   potências nucleares. O relatório do Grupo de Trabalho afirmava que, em circunstâncias apropriadas, as forças dos aliados da NATO poderiam ser estacionadas no território dos novos membros. E o Grupo de Trabalho não excluiu, como deveria ter excluído, o estacionamento de armas nucleares no território dos novos membros. A não exclusão de tal possibilidade significa que a NATO  está a enveredar por um caminho perigoso, um caminho que aumenta os riscos de guerra nuclear.

O silêncio do Grupo de Trabalho sobre este assunto não pode deixar de ser tomado como uma ameaça por aqueles que não estão a aderir à NATO. E, claramente, o mais importante destes é a Rússia, porque também ela possui armas nucleares – tal como a Ucrânia e o Cazaquistão.

O segundo perigo é que a expansão ponha em perigo as relações entre os Estados Unidos e a Rússia, ou mesmo conduza a uma segunda Guerra Fria. Enquanto os países da NATO  apresentam a organização como uma aliança defensiva, a Rússia vê-a de forma bastante diferente. Durante mais de quarenta anos, a União Soviética considerou a NATO como uma aliança ofensiva dirigida a todos os membros do pacto de Varsóvia. A opinião geral na Rússia continua a ser de que a NATO  é uma aliança ofensiva. O antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Sr. Kozyrev, deixou isto bem claro aos membros da NATO. Como pode a Rússia ver as coisas de forma diferente no futuro?

A expansão da NATO  é inevitavelmente vista pela Rússia como um cerco. É visto como assumindo que a Rússia voltará inevitavelmente a ser um Estado agressivo. Isto, contudo, é muito mais suscetível de empurrar a Rússia para a beligerância do que de fazer qualquer outra coisa. Não vai certamente ficar mais calma com os seus receios acerca das intenções da NATO  em avançar para a Europa de Leste. Referindo-se à recente decisão da NATO sobre a expansão, o Diretor do Instituto de Estudos dos EUA e Canadá da Academia de Ciências Russa, declarou recentemente que:

“A Rússia é ainda uma superpotência militar com uma enorme área e uma grande população. É um país com enormes capacidades económicas, com um potencial extraordinário para o bem ou para o mal. Mas agora é um país humilhado em busca de identidade e de  direção. Em certa medida, o Ocidente e a sua posição na expansão da NATO determinarão a direção que a Rússia escolherá. O futuro da segurança europeia depende desta decisão”. [19]

O terceiro perigo no alargamento da NATO  é que este  irá prejudicar a implementação do Tratado START I e a ratificação do Tratado START II, bem como outros tratados de controlo e limitação do armamento destinados a aumentar a segurança europeia. Os Russos, por exemplo, deixaram claro que irão avançar com a implementação do Tratado das Forças Armadas Convencionais na Europa (CFE) “se a situação na Europa for estável”. A expansão da NATO para a Europa de Leste, contudo, altera significativamente o equilíbrio atual na Europa. Assim, os países da NATO  estão a arriscar muitas das conquistas dos últimos 25 anos no domínio do desarmamento. Alguns argumentam convincentemente que a expansão da NATO irá minar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

Tais consequências dificilmente farão da Europa, ou do globo, um lugar mais seguro no futuro.

O quarto perigo principal na expansão da NATO é o de desestabilizar a situação na Europa de Leste. A NATO  afirma que a sua expansão ajudará a assegurar a estabilidade. Mas a Europa Oriental, particularmente após as mudanças dos últimos cinco anos, já é um lugar instável. A expansão gradual da NATO na Europa de Leste aumentará as tensões entre os novos membros e os que ficarem de fora. Não pode deixar de ser assim.  Os que ficam de fora da NATO sentir-se-ão mais inseguros quando a NATO se tiver estabelecido num país vizinho. Isto colocá-los-ia numa zona tampão entre uma NATO em expansão e a Rússia. São obrigados a reagir de forma receosa, e mesmo hostil. A expansão fragmentada da NATO  poderia mesmo desencadear uma corrida ao armamento na Europa de Leste.

A fragilidade da posição ocidental

Quando considerada de perto, a proposta de alargar a NATO  para leste não é apenas perigosa. Parece também um ato desesperado. É obviamente irracional, pois pode tornar-se uma profecia autorrealizada. Pode conduzir a uma segunda Guerra Fria entre as potências da NATO e a Rússia, e possivelmente a uma guerra nuclear. Há que assumir que ninguém quer realmente isso.

Por que razão, então, os países da NATO  proporiam uma tal linha de ação? Porque não seriam capazes de pesar objetivamente os perigos da sua decisão?

Parte da resposta é que aqueles que tomaram esta decisão olharam para ela em termos muito restritos, sem verem o contexto mais amplo em que a expansão da NATO teria lugar. Quando se olha para o contexto mais alargado, a proposta de expansão da NATO é obviamente irracional.

Consideremos o contexto mais alargado. A NATO  propõe-se admitir certos países da Europa Central como membros de pleno direito da aliança num futuro próximo. Outros países da Europa de Leste estão a ser considerados para uma admissão posterior. Esta extensão tem dois objetivos possíveis. O primeiro é evitar “o fracasso da democracia russa”, ou seja, assegurar a continuação do atual regime, ou algo parecido, na Rússia. O segundo é colocar a NATO numa posição favorável se alguma vez eclodir uma guerra entre a Rússia e o Ocidente.

Numa era de armas nucleares, prosseguir o segundo objetivo é talvez ainda mais perigoso do que foi durante os anos da Guerra Fria, uma vez que existem agora vários países com armas nucleares que seriam potencialmente contra a NATO . O argumento de que a NATO deveria ser alargada para Leste, a fim de assegurar ao Ocidente uma vantagem em caso de guerra nuclear, não é muito convincente. E certamente não seria convincente para os países da Europa Central se se falasse abertamente disso. Estes seriam os países mais suscetíveis de sofrer nas primeiras fases de uma guerra deste tipo. A sua situação seria semelhante à da Alemanha durante a Guerra Fria, como o movimento antiguerra alemão começou a compreender nos anos 80.

O principal objetivo da expansão da NATO, como quase todos reconheceram, é assegurar que não haja inversão das mudanças que tiveram lugar na Rússia durante os últimos cinco anos. Isso poria fim ao sonho de uma Europa com três partes,  unida sob a bandeira capitalista, e fecharia um novo espaço muito grande à operação da capital ocidental. Uma presença da NATO  na Europa Central e Oriental é simplesmente um meio de manter uma nova pressão sobre aqueles que desejassem tentar alterar a situação atual na Rússia.

No entanto, como já foi visto, isto significa também fechar a Rússia, e outros países da CEI, num estado de subdesenvolvimento e de crise económica e social contínua em que milhões de pessoas sofrerão terrivelmente, e em que não há possibilidade de a sociedade procurar um caminho de desenvolvimento económico e social em que as necessidades humanas determinem as prioridades económicas.

O que é terrivelmente irónico nesta situação é que os países ocidentais estão a oferecer o seu modelo de organização económica como a solução para os problemas da Rússia. Os analistas realistas, é claro, sabem perfeitamente que não é nada disso. Eles estão apenas interessados em alargar o domínio ocidental mais para leste. E oferecem a sua experiência como modelo para outros apenas para enganar. Mas a ideia de que “a transição para a democracia”, e é assim que  a instalação das regras de mercado é frequentemente chamada, é importante na batalha mundial pela opinião pública, tem ajudado a justificar e a sustentar as políticas que o Ocidente tem vindo a seguir em relação aos países da CEI.

Os próprios países ocidentais, contudo, estão mergulhados numa crise económica intratável. A partir do início da década de 1970, os lucros caíram, a produção falhou, o desemprego de longa duração começou a aumentar e os padrões de vida começaram a baixar. Houve, é claro, os altos e baixos do ciclo económico. Mas o que era importante era a tendência. A tendência de o crescimento do PIB nos principais países ocidentais vir a diminuir desde a grande recessão de 1973-1975. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de crescimento caiu de cerca de 4% por ano nos anos 50 e 60, para 2,9% nos anos 70 e depois para cerca de 2,4% nos anos 80. As projeções atuais de crescimento são ainda mais baixas.

A situação não era muito diferente em outros países ocidentais. O crescimento foi um pouco mais rápido, mas o desemprego foi significativamente mais elevado. As atuais taxas de desemprego na Europa Ocidental são em média cerca de 11%, e há mais desemprego escondido nas estatísticas como resultado de vários planos de pseudoemprego governamentais.

Tanto a Europa Ocidental como a América do Norte sofreram uma estagnação económica prolongada. E as economias capitalistas não podem sustentar o emprego e o nível de vida sem um crescimento relativamente rápido. Nos 25 anos após a segunda guerra mundial, a maioria dos países ocidentais registou um crescimento rápido, na ordem dos 4 e 5% ao ano. Foi esse crescimento que permitiu manter elevados níveis de emprego, o aumento dos salários e o avanço do nível de vida. E não há dúvida de que, no período pós-guerra, os países ocidentais fizeram grandes progressos. Um grande número de pessoas da classe trabalhadora foi capaz de atingir níveis de vida decentes. As classes média e alta prosperaram, de facto, muitas delas atingiram um nível de vida que só pode ser chamado de luxuoso.

A lua-de-mel do pós-guerra, no entanto, está claramente terminada. A grande “revolução capitalista” promovida pelos Rockefellers já não existe mais. O “capitalismo humanizado” já não existe mais. O declínio do crescimento fez-nos regressar à era de “le capitalisme sauvage”. Despoletou uma crise económica e social em todos os países ocidentais. Está a minar as principais realizações do período do pós-guerra. Na Europa, o Estado-Providência tem sido atacado desde há quinze anos por aqueles que transfeririam o fardo da crise para os ombros dos menos afortunados. Nos Estados Unidos, uma “rede social” relativamente escassa para proteger os pobres está agora a ser triturada pelos defensores agressivos e ignorantes dos interesses empresariais, que também querem ter a certeza de que aqueles que podem menos são os que arcam  com o peso da crise de estagnação do sistema.

O Ocidente, então, está ele próprio fechado em crise. Esta não é uma crise transitória ou um “ciclo longo”, como os apologistas académicos gostariam que fosse. É uma crise sistémica. O sistema de mercado  já não pode produzir nada que se assemelhe com a prosperidade. Os mercados que impulsionaram a economia capitalista no período pós-guerra, automóveis, bens de consumo duradouros, construção, etc. estão todos saturados, como demonstram os quadros estatísticos  governamentais em todos os países. O sistema não encontrou novos mercados que pudessem criar uma onda equivalente de prosperidade. Além disso, a aceleração do progresso técnico nos últimos anos começou a eliminar postos de trabalho em toda a parte a um ritmo espantoso. Não há forma possível de compensar o seu efeito, de criar novos empregos em quantidade suficiente e a níveis salariais elevados.

Os líderes governamentais e industriais do Ocidente estão plenamente conscientes da situação num sentido. Eles sabem o que são as estatísticas. Eles sabem quais são os problemas. Mas não conseguem ver que a fonte do problema é o facto de, tendo alcançado níveis muito elevados de produção, rendimento e riqueza, o atual sistema capitalista não tem para onde ir. Poderiam ser encontradas soluções a meio caminho, mas os líderes ocidentais não estão dispostos a fazer as concessões políticas que isso exigiria. Em particular, as grandes concentrações de capital nos países ocidentais são lideradas por pessoas que são constitucionalmente incapazes de ver que algo fundamental está errado. Isso exigiria que eles concordassem com a restrição do seu poder.

Portanto, os líderes governamentais  e da indústria conduzem cegamente, não desejando ver, não estando preparados para aceitar políticas que possam colocar o atual sistema num caminho de transição para uma forma mais racional e mais humana de organizar a vida económica. É esta cegueira, alicerçada na confusão e no medo, que tem toldado a capacidade dos líderes ocidentais de pensar claramente sobre os riscos de alargamento da NATO  à Europa de Leste. O sistema ocidental está a atravessar uma profunda crise económica, social e política. E os líderes ocidentais aparentemente veem a exploração do Leste como o único projeto de grande escala disponível que poderia estimular o crescimento, especialmente na Europa Ocidental.

Estão, portanto, preparados para arriscar muito por ele. A questão é: irá o mundo aceitar os riscos de conflito Leste – Oeste e de guerra nuclear, a fim de se imporem numa  região princípios económicos que já estão a entrar em colapso noutros locais?

 

Notes

  1. DEFENSE NEWS, 25 November 1995; see also Gary Wilson, “Anti-War Activists Demand: No More US Troops to the Balkans”, Workers World News Service, December 7, 1995.
  2. See for instance: “NATO Expansion: Flirting with Disaster”, THE DEFENSE MONITOR, November/December 1995, Center for Defense Information, Washington, D.C.
  1. Senatore Richard Lugar, “NATO: Out of Area or Out of Business”, Remarks Delivered to the Open Forum of the US State Department, August 2, 1993, Washington, D.C.
  2. Changing Nature of NATO”, INTELLIGENCE DIGEST, 16 October 1992.
  3. THE DEFENSE MONITOR, loc. cit., page 2
  4. Bonn’s Balkans-to-Teheran Policy”, INTELLIGENCE DIGEST, 11 – 25 August 1995.
  5. Richard Holbrooke, “America, A European Power”, FOREIGN AFFAIRS, March/April l995, page 39.
  1. The crucial point is that Eastern Europe and the countries of the former USSR are to adopt the institutions prevailing in Western Europe, i.e., capitalism and parliamentary democracy.
  2. Holbrooke, loc. cit., page 43.
  3. See National Security Decision Directive, “United States Policy toward Yugoslavia”, Secret Sensitive, (declassified), The White House, Washington D.C., March 14, 1984.
  4. Joan Hoey,”The U.S.’Great Game’ in Bosnia”, THENATION, January 30, 1995.
  5. Jacob Heilbrunn e Michael Lind, “The Third American Empire”, THE NEW YORK TIMES, January 2, 1996.
  6. “The Commercial Factor Behind NATO’s Extended Remit”, INTELLIGENCE DIGEST, May 29, 1992.
  7. Senator Bill Bradley, “Eurasia Letter: A Misguided Russia Policy”, FOREIGN POLICY, Winter 1995-1996, page 89.
  8. page 93.
  9. Draft Special Report of the Working Group on NATO Enlargement, May 1995.
  10. Quoted in THE DEFENSE MONITOR, loc. cit., page 5.
  11. Dr. Sergei Rogov, Director of the Russian Academy of Sciences’,Institute of USA and Canada Studies, quoted in DEFENSE MONITOR, loc. cit. page 4

Para ler este texto no original, clique em:

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Para ler a primeira parte deste texto publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

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